
Eu desci do ônibus chateada. Por quê todos os motoristas tinham que parar BEM em cima da faixa? Não que eu queira ser certinha nem nada mas, toda vez é perseguição.Sem falar que meu cabelo preto e alisado estava solto e somando àquele vento todo, as pastas, o salto, pode imaginar aqueles bonecos de posto de gasolina?Então.Depois que o ônibus saiu eu pude tentar atravessar, é que em uma avenida larga e movimentada como aquela essa é uma tarefa árdua.
Foi aí que o garoto chegou, com expressão de muito bem vivido, boné azul surrado, bermuda jeans que de tão suja estava ficando amarela e a camiseta laranja em bom estado.Ele chegou perto demais e tinha um olhar ancioso.Ora, eu sou desconfiada demais desde quando era adolescente e perdia horas assistindo casos de roubo, assalto e afins.E me apressei indo dois passos a frente mas ele me seguiu de perto e eu pensei:"Ai Deus é agora!Ilumine a cabeça desse garoto pra que ele não tente nada...E faça que uma bendita alma pare pra eu passar logo".Acho que não pedi muito e logo um carro parou, e nessa faixa em especial funciona assim: um carro para e os outros vêm parando depois.
Claro que eu saí imediatamente,suando muito debaixo do Sol de meio-dia mas também pelo medo , mas o garoto também atravessou e eu acelerei com os calcanhares em falso pelas sandálias.Foi quando eu vi que ele também andava rápido e olhava pro chão. Também tive medo de estar julgando o garoto, ele era só um garoto!Então resolvi arriscar e vê qual era a dele:
-Nossa que susto!
E o garoto sorriu, um sorriso tão fácil e irreverente, de quem era feliz apesar de tudo, tive uma onde de remorso que quase fez eu parar ali na beira da calçada mas eu continuei e ele deu dois passos pro lado e seguiu seu caminho.Na minha conversa infinita com Deus e comigo mesma, pedi perdão e parei olhando o menino subir a rua fazendo uma batucada com as mãos na parte externa das pernas.Não teve como não lembrar do Chico.